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O carnaval do golpe


Publicado em: 11 de fevereiro de 2018


Obra de Rodolpho Chamberland

por Gustavo Conde 

É carnaval. E eu pergunto: e daí? É curioso como o contexto político muda tudo a sua volta. Muda as instituições, muda a rotina diária, muda a despesa doméstica, muda os ânimos, muda as expectativas e muda o sentido das festas populares. O contexto político muda o sentido das palavras, dos enunciados, dos discursos.

A ciência linguística já havia definido isso nos idos dos anos 50: o sentido não está na palavra nem no dicionário nem na gramática. O sentido está no sujeito e na história. O sentido de uma festa popular, portanto, também não é estático. É dinâmico.

O carnaval, no Brasil, por mais ‘festa popular’ que seja, tem dono: é a Rede Globo. Não bastasse o golpe lhe ferir de morte o sentido, ainda tem mais essa. A Globo filtra os sentidos que quer para o carnaval. Não mostra o deboche espontâneo, rescaldo sobrevivente de um conceito idealizado de carnaval que aponta as violências do cotidiano e que põe em movimento simbólico, de fato, a catarse popular.

O carnaval é perigoso. É o povo na rua. E, ‘povo na rua’ no Brasil, só com a chancela e supervisão da Globo. Esta emissora de televisão é realmente um fenômeno sociológico único, um caso de apropriação generalizada de toda a cultura popular de um país continental inteiro. Não há precedentes no mundo. O Brasil é um país que vive em cativeiro desde 1965.

Somadas, portanto, ambas tragédias humanas – o golpe e a Globo – este carnaval de 2018 vai se apresentando como uma espécie de apocalipse cognitivo – o que não deixa de ser um espetáculo. De um lado, carnavalescos genuínos debochando do golpe, do Temer, da Globo, da Cristiane Brasil, do Alckmin, do Huck, enfim, do poder (como reza a cartilha do sentido clássico de todo e qualquer carnaval).

De outro lado, as imagens higienizadas da Globo e todas as suas afiliadas, incluindo a Band (conceitualmente falando, a Band é uma afiliada adestrada e obediente da Globo). É um jorro monumental de hipocrisia associada à falta de imaginação e delinquência jornalística. Quem aguenta um narrador de desfile de escola de samba? Quem suporta o volume de baboseiras semânticas que eles falam com dicção e prosódia que beiram o grotesco?

Claro: talvez, eles façam parte da folia, como personagens erigidos no mais puro autodeboche. Mas, o patrocínio e e as cotas suculentas de publicidade estão lá, devidamente canalizadas para as mãos já bilionárias dos simpáticos irmãos Marinho. Pura justiça social via festa popular – fora o controle social que se promove a seus donos, de lambuja.

E é, evidentemente, disso que trata esta missiva: controle social. Isso, inclusive, já está consagrado na literatura, desde o trabalho de Bakhtin sobre Rabelais e o grotesco até a sociologia discursiva dos anos 2000. Festa popular e deboche coletivo não tem nada de catarse e libertação. É puro controle. Ninguém melhor do que a Globo para perceber isso de maneira estratégica e diabolicamente rentável.

Na medula do golpe, o carnaval brasileiro é uma felicidade sem fim para os golpistas. O país para. O jornalismo descansa. Os sorrisos aparecem. A pauta migra para a alegria e as tragédias do cotidiano – de trânsito, de violência e de estética.

Já em berço esplêndido, o país mergulha em sono profundo. Temer, agora, está numa praia com a família. Fernando Henrique está em seu apartamento em Higienópolis se deixando manipular docemente pelos veículos de comunicação que lhe deram vida – e que se aproveitam de sua confusão mental para articular candidaturas e alianças. É extremamente confortável ter um títere de cepa tão aristocrata. É só lhe enfiar palavras na boca, tirar de contexto e destacar nas homes pré e pós carnavalescas de articulação eleitoral.

Carnaval é controle. Legiões caminham uniformizadas rumo a espaços cercados por cordões. Não há alegoria melhor para criadores de gado. No carnaval, debocha-se da liberdade. O bloco de apologia à tortura – proibido de desfilar – é decorrente desta entropia cognitiva. Chegamos a um ponto extremo de intoxicação dos sentidos – não sem a ajuda preciosa de uma emissora de televisão. A Globo tem expertise em inocular ódio e em sabotar toda e qualquer resistência a suas fórmulas de interpretação do mundo real e simbólico. Tome-se Cleber Machado lhes dizendo o significado do carro alegórico da Grande Rio.

Nossa, mas quanta mágoa! É carnaval! Vai tomar uma cerveja! Vou. Vou, não sem antes me desculpar. Essa fixação em ‘pensar’ ainda vai acabar me matando. Na folia dos neurônios, eu me despeço prometendo que tentarei descontrair. Talvez, eu esteja fazendo um deboche, vai saber. Afinal, é carnaval.