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Política é Para Todos, Politicagem é Para Alguns


Publicado em: 28 de janeiro de 2018


 

 

Pode ser fruto do calor dos trópicos, pode ser talvez um resquício da tal famosa herança brasileira sinônimo de “cordialidade”, do “homem cordial”, com que Sérgio Buarque de Holanda tratou em livro clássico. Sabe aquele tipo que usa mais o coração do que a razão para interagir nas variadas questões do cotidiano? Pois é… Não são grandes líderes aqui e nem grandes heróis ali, na forma com que se pratica política no Brasil, há homens pensando em si mesmos.

 

Mas, o fato de creditarmos a praticamente uma só pessoa a possibilidade de tocar o governo de um país e dar conta de toda a gama enorme de complexidades e singularidades da administração pública para resolver, o famoso “salvador da pátria”, é um erro tremendo. E essa questão é tendo em mente qualquer um dos lados, ditos de esquerda ou direita, ou outros tais. Sozinho, sem um aparato administrativo extremamente equilibrado, hábil, coeso, sensato, responsivo, comprometido com a nação como um todo e não com partes dela – seja a elite, seja o povo – nenhum homem dará cabo do legado do país. Não vale aqui no momento fazer comparativos das desigualdades (embora conscientes de termos uma enorme “correção” a ser feita a favor dos mais desfavorecidos. É fato.)

 

Nada se fará, ou se o fizer, será a continuação de um ciclo de privilégios aqui e acolá. Falta-nos o sentimento de uma formação política, educação para a política. O país acima dos partidos. Não se trata aqui de partidarismo. O partidarismo tal como temos feito está destroçando o Brasil. Coalizões, alianças, conchavos em proporções estapafúrdias. Nossa representação é falha, é eleitoreira, a ela só interessa chegar às instâncias de poder. Chegando lá, dane-se a nação, toma lá, dá cá agora. Poucas ações efetivas têm sido praticadas, postas em ação para retornar à toda população. O estigma da demagogia continua firme e forte.

 

As instituições é que importam. Não os homens sozinhos. A atenção deve ser dada às instituições fortes, intocáveis. Enquanto nossa “governança” misturar o público com o privado, enquanto fazermos politicagem e não política, esse fantasma irá perambular desgovernado e descabido nos assustando cotidianamente com o descaso, o desprezo, a infâmia. Política e não politicagem, para a energia, para a água, para a educação, para a saúde, para a economia, etc. Usar as instituições para benefício próprio é o fim da picada e estamos vendo um ciclo perpétuo de uso ilícito das instituições o tempo todo.

 

Uma política onde se preserve a instituição: inabalável, incorruptível e intocável, terá um Estado justo para todos. Ricos não serão (mais) beneficiados e desfavorecidos (históricos) terão oportunidades iguais, igualdade na acepção pura do termo. Pode parecer um sonho distante ao se localizar no mapa, pois não é o que faz no Brasil desde sempre, o oposto é o que vale, com meia dúzia de gatos pingados arrebatando quase toda a riqueza do país. Triste, apático, mas não podemos continuar assim, acreditando em pessoas e suas falhas, seu egoísmo, hipocrisia e sua ganância doentia.

 

Se continuarmos na corda bamba dos interesses mesquinhos, dos favoritismos e toda sorte de bandalheira que fazem na democracia brasileira, vamos continuar a cair e cair, jamais ficaremos equilibrados. Politicagem não nos representa, o que nos representa é a política. Política é para todos, politicagem é para alguns.

 

Cristine Souza